O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) é um dos motores da reprodução social no campo, mas a geografia de seus recursos passou por uma transformação estrutural na última década. A análise da série histórica de custeio (2014–2024) realizada pelo Observatório da Agricultura Familiar revela que, enquanto o volume nacional de operações apresentou uma leve queda ou estagnação (de 1,81 milhão para 1,80 milhão), o volume financeiro saltou expressivamente de R$ 24,6 bilhões para R$ 64 bilhões. Isso elevou o “ticket médio” de cada contrato de R$ 13,5 mil para mais de R$ 35,5 mil, indicando uma maior capitalização dos projetos financiados.
Os dados apontam para dois fenômenos regionais distintos. No Centro-Sul e Norte, observa-se uma “Concentração Vertical”: regiões como Sul e Centro-Oeste apresentaram retração acentuada no número de contratos (com quedas de até 43% no Mato Grosso e 24% no Paraná), mas o volume financeiro total recebido cresceu. Embora a Região Sul ainda concentre 51,9% de todas as operações graças ao seu forte cooperativismo, ela perdeu quase 14 pontos percentuais de participação.
Na contramão, o Nordeste protagonizou uma “Expansão Horizontal”, sendo a única região a registrar crescimento simultâneo na quantidade de contratos e no volume financeiro. Estados como Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão e Piauí saltaram de 5,79% para 17,88% do total de operações do país, evidenciando uma ampliação do acesso a políticas públicas e bancarização do produtor familiar no semiárido. A redistribuição do crédito reduz assimetrias históricas, mas o aumento do ticket médio nacional acende um alerta sobre a necessidade de garantir que produtores mais vulneráveis não sejam excluídos do sistema.


